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Sachs ressalta necessidade de planejamento para longo prazo
Autora: Vanessa Brito | Data: 30/10/2009
Professor honorário da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais da Universidade de Paris, Ignacy Sachs, foi um dos palestrantes do segundo painel do 4ª Conferência Nacional dos APL na quinta-feira (29)
4ª Conferência Nacional dos Arranjos Produtivos Locais (APL)
Brasília - Durante alguns períodos de sua história, o Brasil demonstrou ser capaz de se planejar para longo prazo. No momento, o País estaria apto a fazer esse exercício, com bastante propriedade, baseado no fato de que, hoje, conta com a vivência de experiências inovadoras e bem sucedidas nos campos social e econômico, além de dados e estatísticas confiáveis que começaram a ser organizados na última década.
Nesse contexto, a experiência nacional dos Arranjos Produtivos Locais (APL) veio para ficar, como sólida política do Estado brasileiro, revelando um novo modelo de desenvolvimento colocados em prática com base na cultura da cooperação, com a associação de setores ou entre setores em territórios e realidades específicas. Porém, é muito perigoso banalizar o conceito de APL, atribuindo a ele iniciativas que não seguem rigorosamente os princípios e fundamentos dos arranjos produtivos.
Essas foram algumas das observações de Ignacy Sachs, professor honorário da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais da Universidade de Paris, onde coordena o Centro de Pesquisas sobre o Brasil Contemporâneo, feitas em palestra proferida no segundo painel da 4ª Conferência Nacional dos Arranjos Produtivos Locais (APL), nesta quinta-feira (29) em Brasília.
O tema do painel foi ‘Arranjo Produtivo Local: Estratégias para o Futuro’, que também contou com a participação de Julio Ruiz Fernandez, coordenador nacional e secretário executivo do Comitê Interministerial da Corfo (Agências Regionais da Corporação de Fomento do Chile); Giovana Ceglie, chefe da Unidade de Clusters e Rede de Negócios da Unido (Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial); Aurélio Molina, diretor de inovação e competitividade empresarial do Porto Digital de Recife; Renato Caporali Cordeiro, gerente-executivo da Unidade de Cooperação Internacional da CNI (Confederação Nacional da Indústria); e Renato Ramos Campos, professor e coordenador do curso de Economia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e da Redesist da UFRJ. O gerente da Assessoria Internacional do Sebrae Nacional, Vinicius Lages, foi o moderador do painel.
A experiência positiva dos APL no Brasil se deve, em especial, à enorme capilaridade de instituições como o Sebrae e o Banco do Brasil, importantes parceiros e apoiadores dos arranjos produtivos, de acordo com Sachs. “A idéia de consolidação dos APL está muito relacionada à capacidade de instituições estarem na ponta”, disse ele.
Sachs também alertou quanto ao perigo do voluntarismo irresponsável, que pode ocorrer no processo de montagem de arranjos produtivos e das políticas de desenvolvimento local e regional. “No voluntarismo responsável, definimos para onde queremos ir e organizamos a caminhada da melhor maneira possível”, justificou. O palestrante declarou, no entanto, não possuir uma fórmula mágica para dizer quando um e outro começam.
Os APL brasileiros partiram do modelo dos distritos industriais italianos, mas foram adequados à realidade nacional. São iniciativas que frutificam com o passar do tempo e dependem da capacidade de planejar e replanejar, segundo ele. O exercício do planejamento é também um exercício de reconstrução e reciclagem, salientou o professor.
“Se o mercado se auto-regula, para quê essas coisas (planejar)?”, provocou a Sachs, dirigindo-se à platéia. “Não sei se alguma universidade no Brasil ainda ensina isso”, respondeu brincando. O Brasil tem capacidade de se planejar para longo prazo e já provou isso em várias ocasiões, enfatizou Sachs.
“Agora seria um momento especial para o Brasil pensar projetos regionais e nacionais, a serem implementados nos próximos 15 anos. Esse seria o prazo mais fácil para ser avaliado e evitaria voluntarismos irresponsáveis”, sugeriu. Planejar para além de 15 anos seria um exercício de astrologia, brincou novamente.
“Para mim a data mágica é 2022. Estaremos comemorando 50 anos da Conferência de Estocolmo e 30 anos da Rio/92”, justificou, referindo-se à primeira reunião de cúpula das Nações Unidas sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente, realizada na Suécia em 1972, e à Eco/92, a segunda sobre o mesmo tema, na cidade do Rio de Janeiro em 1992.
“A crise terminou?”, provocou a platéia, mais uma vez. “Estamos no esquema V ou W? Vai cair, voltar, cair de novo etc? Alguns acreditam que estamos dentro do buraco”. Sachs chamou a atenção aprendizados importantes que a crise financeira internacional já proporcionou para a academia, especialistas, governos e empresários: a necessidade da consolidação da rede universal de serviços de saúde, saneamento e educação popular, como uma obrigação do Estado, visando apoiar especialmente a população sem intermediação com o mercado; a ampliação do perímetro da economia solidária no mercado, que não se rege pela apropriação individual dos lucros; e a transição para a economia de baixas emissões de carbono ou ‘economia verde’.
“Se nos basearmos nesses três fatores, será mais fácil planejar projetos e programas coletivos e individuais”,assegurou. É preciso visão sistêmica para lidar com o futuro, alertou Sachs. “Não se discute, nesse tipo de planejamento para longo prazo, apenas programas para as cadeias de produção”. A inserção das dimensões social e ambiental nesse exercício de planejamento é fundamental.
“Temos um grande esforço intelectual a fazer. Vendo o número de pessoas aqui presentes, creio que o futuro está em boas mãos”, disse Sachs, encerrando a palestra. O auditório lotado de técnicos, autoridades, especialistas, acadêmicos e estudantes, aplaudiu calorosamente o professor visionário e um dos mentores do conceito de Desenvolvimento Sustentável, o novo padrão de desenvolvimento a ser praticado no século XXI, que propõe a conciliação entre justiça social, equilíbrio ambiental e eficiência econômica.
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